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quinta-feira, 17, junho, 2021

NBA, racismo e “eu não sou seu Negro”

Criada em 1946 que só tinha 11 equipes disputando a liga, a NBA (National Basketball Association) assim como a NFL (National Futebol League)nasce depois de uma fusão com uma liga menor, a BAA (Basketball Association of América). Só então a partir de 1949 a NBA se consolida como a única liga profissional de basquete nos EUA.
Na época da sua consolidação enquanto um esporte profissional, era proibido a participação de pessoas pretas em eventos públicos e também nos esportes, visando uma integração com os pretos na época a NBA implantou um sistema de cotas onde cada time poderia ter até 3 pretos em suas equipes.

Francis Earl LLoyd foi o primeiro preto a participar de um jogo profissional da NBA em 1951, neste mesmo ano Jhonny Bright era brutalmente agredido em um jogo de futebol americano universitário . Este período nos EUA entre os anos 50 e os anos 60 é o período onde se concentra o processo dos direitos civis e de grandes lideres pretos e movimentos, Malcolm x, Martin Luther King Jr, a Revolta de Watts, o Partido dos Panteras Negras, a Batalha de Chicago… em pouco mais de 10 anos vários acontecimentos históricos que marcam a luta antirracista nos EUA e que refletiram em outras parte do mundo.

O BOICOTE NA NBA

historicamente esta ligada a questões trabalhistas e raciais, em 1964 no All Star game os jogadores ameaçaram em não entrar em quadra pois não havia um acordo sobre o plano pensão que já era debate desde 1957, quando os jogadores ameaçaram uma greve, neste mesmo ano foi fundada a NBAPA que em tradução livre seria a Associação dos jogadores da NBA, que teve também um papel importante no boicote de 2020. A NBA é uma organização Branca e Racista (pleonasmo), quando Martin Luther King morre em 1968 as finais do leste são marcadas na semana após o assassinato do líder religioso, a NBA então sente a primeira crise racial de sua história. Bill Russel o maior campeão da NBA com 11 títulos em 13 anos pelo Boston Celtics foi o primeiro a se opor a realização da partida, Russel também foi um dos primeiros a ter voz ativa politicamente e pela democratização cultural do Basquetebol. Russel sofreu racismo quando um restaurante não o quis servir comida por ser um homem preto, a ascensão social não o impediu de sofrer racismo mesmo sendo um jogador profissional e reconhecido na liga, outro jogador que se opôs a partida foi o lendário Wilt Chamberlain do Philadelphia 76ers e junto com Russel pediram o adiamento do all star game, a NBA é claro seguiu com seu protocolo, as finais ocorreram e a justificativa foi de que contratos poderiam ser perdidos.

Nos anos 80 conhecida como a era de ouro do basquete por ter no centro das atenções a maior rivalidade da história entre Boston Celtics e Los Angeles Lakers. É importante perceber que o racismo e o basquete estava entrelaçados entre o que acontecia nas ruas e o que se refletia em quadra, o time do Celtics mal conseguia lotar o seu estádio pois a torcida de majoritariamente branca não aceitava que pretos jogassem no time, isso muda com Lary Bird onde a classe trabalhadora se sentia representada e assim volta a lotar o ginásio e acompanhar as partidas. A cidade de Boston também era conhecida como uma das mais racistas do país.
Los Angeles também não fica para trás e contrata Magic Jhonson jogou 13 temporadas pelos Lakers. Nesta época de ouro a NBA se encontrava dividida não só pelas questão racial mas também pela classe, o Boston Celtics com uma torcida majoritariamente branca e rica e do lados dos Lakers uma maioria negra e pobre.

EU NÃO SOU SEU NEGRO

Raoul Peck é Diretor e cineasta Haitiano, no ano de 2017 foi indicado ao Oscar com o melhor documentário. Este documentário é baseado no livro inacabado de James Baldwin sobre Racismo nos EUA, o doc. examina as questões raciais contemporâneas com os relatos sobre os 3 principais lideres negros na década de 50 a 60, Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther king Jr , o documentário tem a narração de Samuel L. Jackson.

O documentário relata um processo histórico de que como o teatro, a televisão e o cinema usaram e usam de sucessivas tentativas de desumanização, apatia e auto ódio entre os pretos. E é através da mídia que a brutalidade e a violência policial se expressa na sua crueldade racista. Rodney King foi um operário da construção civil que foi brutalmente espancado pela policia de Los Angeles por cera de 8 minutos sendo eletrocutado por duas vezes durante o espancamento, Rodney king só havia cometido a infração de estar acima do limite permitido, isso aconteceu em 1991 e os autores do crime foram 4 policiais brankkkos onde a corte dos EUA declarou todos os policiais INOCENTES. A sentença desencadeou o famoso “distúrbio de Los Angeles” que durou 5 dias, foram 53 mortos e 2 mil pessoas feridas, esse foi o revide que o povo preto encontrou para protestar e colocar em xeque novamente o papel da policia enquanto instituição no controle e na manutenção do racismo.

Quando a lógica racista é ameaçada, o sistema racista inicia seu protocolo de eliminar ‘líderes’ negros seja numa posição mais radical como Malcolm X e os Panteras Negras com a morte de Fred Hampton ou numa posição pacifista antiviolência e integracionista de Martin Luther King Jr, e isso sempre aconteceu, a história dos pretos nos EUA é a história dos EUA, assim como no Brasil a história é dos povos indígenas e do povo preto que construiu esse país e assim como lá não se tem acesso ao progresso capitalista que só existe por que escravizou e matou, a história do Brasil é a história dos indígenas e dos pretos.

DOCUMENTÁRIO EU NÃO SOU SEU NEGRO

O Documentário retrata também em um momento do filme a ascensão social do preto, que na visão dos brankkkos por mais que houvesse dificuldade e obstáculos (racismo) na ascensão do preto nos EUA, o país poderia ter um presidente preto em 40 anos como revela o doc. e que de fato aconteceu com Barack Obama em 2008. O Documentário também revela as ações dos lideres como uma maneira de revide contra o sistema racista e a opressão policial.

Mas nós sabemos que a violência policial é um dos instrumentos que o racismo usa para “colocar limites” na revolta do pretos. Se em 1964 Bill Russel e Chamberlain tentaram boicotar o all star game pela morte de Martin Luther King, se nos anos 80 a questão racial se expressa no basquete pela rivalidade Celtics e Lakers, se na década de 90 a policia racista desencadearia uma revolta que ficaria na história, nos anos 2000 o que se percebe é um avanço nas agressões e assassinatos filmados onde a justiça e a punição a esses crimes simplesmente não existe, a não ser que se queime, que quebre, que mate, que destrua e ainda assim é apenas para fazer garantir a lei que é punir os autores dos crimes.
Em 2020 não muda muita coisa, Breonna Taylor médica de 26 anos teve seu apartamento invadido pela policia e morta com oito tiros, a policia disse que estava cumprindo um mandado de busca sobre drogas, a suspeita era sobre o seu companheiro mas ela já não estava com ele. George Floyd foi estrangulado por um policial após abordagem, George Floyd repetiu varias vezes que não conseguia respirar. Jacob Blake de 29 anos foi atingido por 7 tiros pelas costas durante a sua “prisão”, veja, passasse os anos, passasse décadas, passasse séculos o que muda é sempre o nome e não a cor.

E da mesma maneira como foi lá nas décadas de 50 e 60 com protestos violentos, o ativismo no esporte em 2020 não foi muito diferente, os protestos se inflamaram com os constantes assassinatos de pessoas pretas nos EUA, o assassinato de George Floyd foi um estopim de protestos violentos e assim como no passado jogadores de diversos times da NBA participaram de protestos. Kyrie Irving, Giannis antetokounmpo, Damian Lillard, Lebron James e vários outros jogadores protestaram durante o “Black Lives Matter”. A ação policial que quase resultou na morte de Jacob Blake fez com que os jogadores da NBA boicotassem os Playoffs de 2019–2020 e com isso trazer o debate de reafirmar que o esporte é um espaço para se falar de politica e questões raciais e cobrar do Estado medidas antirracistas paralisando modalidades esportivas que geram bilhões de dólares e amplamente assistindo por pessoas brankkkas.
Trazer o documentário para esse debate no contexto do boicote e NBA é mostrar que primeiramente a maioria dos jogadores da NBA são jogadores pretos isso é muito óbvio entendendo que o basquete profissional é posterior ao basquete raiz, ao basquete de rua, ao basquete que esta ligado aos 4 elementos do Hip-Hop, é entender que a maioria nos demais esportes como o Futebol Americano, o Baseball e futebol também tem a sua maioria de jogadores pretos e não a toa o boicote da NBA atingiu todas essas modalidades paralisando um negócio de bilhões de dólares. É claro que o mercado financeiro entrou em ação para amenizar as perdas e os contratos firmados e isso diz muito sobre qual tipo de estratégia de revide pode ser utilizar para potencializar manifestações mais agressivas nas ruas. Neste caso a ascensão social dos jogadores que representam esse ativismo dentro do esporte conseguem sentar a mesa de negociação mas ainda assim não vai ser como deveria ser, por exemplo, a NBA e o sindicatos dos jogadores chegaram ao acordo de 2.2 Bilhões de dólares para tratar de questões raciais nas comunidades onde os times são atuantes, jogadores usariam camisetas reforçando o “poder do voto”, as quadras teriam mensagens anti-racistas e assim “conscientizar” o seu publico e o segmento. A força midiática e monetária dos jogadores ao sentarem na mesa de negociação só quer dizer que essas organizações não pode ficar omissa nesses casos por que se pudessem eles ficariam, mas são essas mesmas organizações que dita o que vai ser ou não uma questão racial e mudar o formato da reivindicação que é o fim do racismo, é como se colocasse perfume na merda sabe? e o racismo não se combate deixando com um cheiro menos pior, se combate com autonomia. Já pensou se todos esses jogadores resolvessem fundar uma liga de basquete com todos os segmentos que aglutina o esporte só de pessoas pretas? televisão, radio, podcast, moda, musica, ascensão social .Reparação histórica é isso e é sobre isso que nós temos que começar a projetar, algo que é feito por nós e para nós pessoas pretas.

Todas as imagens no texto foram retiradas da internet.
Marcus Vinicius, 28 anos. Graduado em Geografia; raça primeiro; Eu escrevo o que eu quero.

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